OS CAFÉS,
PONTO DE ENCONTRO
O café, por sua capacidade
de estimular o cérebro e alegrar o espírito, é,
sem dúvida, uma bebida essencialmente agregativa, incentivadora
da sociabilidade e de uma boa conversa. É natural, portanto,
que os locais de consumo dessa bebida se tornassem pontos de encontro
e centros da vida política, literária e artística,
onde predominava um ambiente de descontração e alegria.
Os pioneiros do gênero foram, sem dúvida, as escolas
de sábios, onde sorvendo lentamente a bebida,
à qual costumava-se adicionar essências como cravo,
canela, anis,
ou cardamono, os levantinos discorriam sobre
os últimos poemas ou relembravam fábulas e lendas. Observando
a atmosfera dos cafés nos diferentes países, podemos
concluir que eles refletem a mentalidade e o espírito de cada
povo. Thomas Macaulay, ao discorrer sobre os cafés
ingleses, notava : "Naquele tempo, o café
londrino bem podia ser considerado uma instituição política",
e continua: "Cada coffee house tinha um ou mais oradores,
cujos discursos eram ouvidos com admiração e elas logo
se transformavam naquilo que os jornalistas de nosso tempo chamam
de o quarto Estado." Havia na Inglaterra cafés
para todos os gostos e profissões. Em alguns , médicos
famosos atendiam seus clientes, em outros, judeus vindos de Amsterdã
entabulavam negócios. Naqueles freqüentados por puritanos,
onde era proibido praguejar, discutiam-se as condenações
eternas, enquanto conjuras eram tramadas nos freqüentados pelos
papistas. Em Viena, os cafés constituem
ainda hoje um dos pontos de atração da cidade, destacando-se
pelo bom gosto e requinte das instalações. Todo vienense
tem seu café predileto, onde pode ao mesmo tempo sentir-se
no aconchego do lar e participar da vida das ruas, sendo por isso
o local preferido pelos idosos, tão numerosos nessa cidade.
Uma característica típica dos cafés vienenses
é a leitura dos jornais.
Este costume foi instituído
por Cramer, que punha à disposição
de seus fregueses não apenas jornais austríacos, mas
de todas as capitais da Europa, propiciando aos clientes tomar conhecimentos
e discutir os principais acontecimentos mundiais. Entre os cafés
vienenses destacam-se o Imperial, preferido
por Brahms, e o Café D'Argent,
onde , desde as panelas até os cabides, tudo era de prata.
Será em Paris que os cafés irão respirar mais
espiritualidade, mais arte, mais literatura. Ao café ia-se
para beber, mas sobretudo para conservar, trocar idéias e participar
da aura criadora que envolvia esses ambientes. Um marco na vida dos
cafés parisienses foi a inauguração, em 1675,
do Procope, de propriedade do siciliano
Francesco Procopio Dei Coltelli. O luxuoso estabelecimento
era ornamentado com enormes espelhos, ricas tapeçarias e belos
lustres de cristal; e a proximidade da Comédie
Française propiciava a freqüência
de atores comediantes e espectadores. Também eram assíduos
comensais de suas mesas de mármores escritores famosos, como
La Fontaine, Diderot, D'Alembert
e Voltaire, que tinha no café a sua bebida
favorita. Freqüentados, nos tempos revolucioná- rios,
por Danton, Marat e Robespierre,
de suas salas partiu a ordem para o ataque à Tulherias. E,
quando a calma retornou à cidade, o Procope
voltou a ser ponto de encontro de escritores como George Sand,
Musset, Verlaine e Anatole
France. Os cafés proliferaram em Paris. Entre os mais
famosos estavam o Café Laurent,
ponto de encontro de literatos, o Café de la Regence,
conhecido pelas partidas de dados e jogos de dama, e o Café
de Foy, preferido por oficiais e homens de negócios.
Outros estabelecimentos devem ser
lembrados, como o Café Della Rotonde
e o Divan, este o preferido de Balzac,
e já no nosso século XX o Deux Magots
e o Flore, epicentros do existencialismo,
enquanto o La Cupole era o ponto de reunião
dos pintores cubistas. O primeiro café italiano foi o Veneza
Triunfante, fundado em 1720 por Floriano Francesconi.
Deu origem ainda hoje famoso Café Florian,
palco dos grandes momentos da vida italiana, que dividiu com o Café
Quadri a preferência de artistas e literatos.
O mais famoso e antigo café romano é o Greco,
em cuja saleta, denominada o sacrário del Greco, brilharam
uma plêiade de celebridades como Goethe, Stendal,
Goldoni, Mark Twain, enfim, o que
havia de mais importante na música e literatura mundiais. Em
Padova, encontramos o Café Pedrocchi,
conhecido como a mais linda casa de café do mundo. Verdadeiro
monumento arquitetônico tem, inclusive, uma sala de concertos
e mantinha no século passado um jornal, II Caffé
Pedrocchi, dedicado à arte e literatura. Em Turim,
os cafés tiveram importante papel na história do Rissorgimento
Italiano, destacando-se o Café Flório,
quartel-general de Cavour e seus companheiros, enquanto
que em Florença, terra das artes, o Café
Michelangelo reunia um grande círculo de artistas.
O primeiro café norte-americano foi o London Coffee
House, de Boston, logo seguido pelo King's
Arms, instalado em 1696 na Broadway. Interessante destacar
que os cafés americanos funcionavam como locais para o julgamento
das questões judiciais e assembléias populares. A história
política e social de Portugal fez-se à volta das mesas
dos cafés, onde nasceram os movimentos que agitaram o país
no século XIX. Havia o Nicola, preferido
por Bocage, e Martinho,
ponto de encontro de Eça de Queiroz, Fialho
de Almeida e João de Deus, onde mais
tarde também se reuniram os participantes do movimento Modernista,
tendo à frente Fernando Pessoa.
No Brasil...
No Brasil, a cidade em que os cafés
tiveram maior importância como centro de atividades literárias
e políticas foi o Rio de Janeiro. Segundo Luiz Edmundo,
no seu Rio de Janeiro do meu Tempo, "o
café, no começo do século, era meio casa de família,
meio grêmio, meio escritório, sempre cheio, ponto agradável
de reunião e de palestra, onde se recebiam recados, cartas,
amigos, conhecidos e até credores. Daí a intimidade
verdadeiramente doméstica que se estabelecia entre freqüentadores
e empregados, que acabavam sabendo da vida de todos".
O coração da cidade era esquina das ruas Ouvidor e Gonçalves
Dias, e nesse ponto é que se instalou o famoso Café
do Rio. Em estilo art noveau, ornamentado com
os infalíveis espelhos, em suas mesas de mármore, com
cadeiras Thonet, reuniam-se todas as tardes o que a cidade
tinha de mais representativo, no meio de um barulho e confusão
gerais, tão a gosto dos cariocas. A freqüência das
três às seis da tarde era composta de estudantes da Escola
Militar e da Politécnica; mais tarde surgiram os políticos
como Pinheiro Machado, Flores da Cunha,
Francisco Glicério, Barbosa Lima
e Lauro Müller; músicos como Júlio
Reis; pintores como Antônio Parreiras
e Bernardelli, e tantos outros. Também famoso
era o Café de Paris, no Largo da
Carioca, ponto de reunião da boêmia da época,
freguesia composta de artistas, pintores e jornalistas que, segundo
Luis Edmundo, "devido às suas parcas posses
era consumidora de poucas xícaras de café e muitos copos
d'água". Outros cafés célebres
teve a cidade. No beco das Cancelas, o Café das
Cascatas apresentava uma harpista que executava músicas
eruditas. Na rua 1º de março ficavam o Globo,
com suas animadoras tertúlias, e o Carceler,
pioneiro em adotar a moda das mesas na calçada. Na Rua do Rosário,
o Café do Amorim, onde se bebia o
melhor cafezinho da cidade, freqüentado por tabeliães,
funcionários e negociantes portugueses.
Café
Papagaio...
O Café Papagaio,
na Rua Gonçalves Dias, foi sem dúvida o mais típico
dos cafés brasileiros, onde os freqüentadores eram saudados
pelo irreverente Bocage, ave que deu nome ao estabelecimento.
Um conjunto composto de harpa, flauta e dois violinos executava músicas
de Ernesto Nazareth e Chiquinha Gonzaga,
animando um ambiente descontraído, do qual participavam Paula
Nei, Bastos Tigre, Raul Pederneiras,
Olegário Mariano e outras personalidades de
destaque da Capital da República. Na década de vinte,
a vida do Rio de Janeiro passou por modificações que
provocaram o desaparecimento do espírito dos cafés e
o fechamento dos estabelecimentos mais tradicionais. Outros surgiram,
porém, como o Lamas, o Amarelinho
e o Nice, que serão os últimos
cafés da cidade. Enquanto o Lamas,
situado no Largo do Machado, era reduto de estudantes, o Café
Nice, na Avenida Rio Branco, era o ponto de reunião
dos artistas da música popular, no tempo áureo do rádio
brasileiro. Em São Paulo, por volta de 1850, apareceu o primeiro
local de venda da bebida na cidade: a casa de Maria Punga,
situada na Rua da Imperatriz, hoje 15 de Novembro, onde o café
era servido na varanda, a 40 réis a xícara, para uma
freguesia composta de acadêmicos de Direito, empregados do comércio
e negociantes. Em 1876 foi inaugurado o Café Europeu,
o primeiro café da cidade, instalado num ambiente de muito
luxo e requinte, na esquina do Beco do Inferno com a Rua da Imperatriz,
em pleno coração de São Paulo. O Acadêmico,
na Rua de São Bento, e o Girondino,
no Largo da Sé, eram os preferidos pela mocidade sonhadora
e ruidosa da academia de Direito, que ao lado de pintores, músicos
e intelectuais que formavam a boêmia da época, varavam
a noite em animadas tertúlias, quebrando a monotonia da provinciana
paulicéia. Na Ladeira de São João ficava o Café
Brandão, ponto de reunião de homens de
negócios, figurões da política e fazendeiros
endinheirados.
Paraná...
"A titulo de colaboração,
moro em Londrina, Paraná, que já foi a Capital Mundial
do Café!!!
E onde - até hoje - sedia uma das maiores empresas de Café
Solúvel do Mundo!!! E viva o café!" (Benvinda Palma)
Café
Guarani...
Outros estabelecimentos surgiram,
como o Café Guarani, o Java,
o América e, mais tarde, o Café
Viaduto, na Rua Direita, lugares agradáveis onde
os paulistanos reuniam-se para uma boa conversa. Havia um lugar, porém,
em que o assunto abordado pelos freqüentadores era um só:
o café. Eram os cafés situados em Santos, na zona do
alto comércio cafeeiro, onde corretores, comissários,
exportadores e fazendeiros discutiam e trocavam idéias sobre
os negócios que envolviam a preciosa rubiácea. Os cafés
tiveram, sem dúvida, grande importância através
dos tempos. Ao redor de suas mesas, discutiram-se teorias, tramaram-se
revoluções e surgiram idéias que marcaram profundamente
a história da humanidade.
HISTÓRIA
DO CAFÉ
Originário da Abissínia,
onde aparece como planta selvagem, o café tem sua história
envolta em mistérios e lendas. Uma delas conta que a bebida
foi criada pelo arcanjo Gabriel, a fim de
restaurar as forças de Maomé,
que após ingeri-la tornou-se capaz de derrubar quarenta cavaleiros
e conquistar igual número de damas. As qualidades desse fruto,
como fonte de vigor e ânimo, foram descobertas pelo pastor etíope
Caldi. Ao perceber estarem suas cabras particularmente agitadas,
notou que comiam folhas e grãos de um arbusto até então
ignorados por todos : eram pés de café. Monges que viviam
na região prepararam uma infusão com o fruto, passando
a tomá-la assiduamente, pois esta os mantinha despertos para
melhor enfrentar as longas noites de vigília e oração.
A planta, descendo das montanhas da Etiópia,
aclimatou-se muito bem no Iêmen, surgindo
nessa região uma produção em larga escala. Devido
à proibição de bebidas alcoólicas pela
religião maometana, o café tomou conta do mundo árabe,
passando a ser consumido por todos: nos lares ao amanhecer, nas mesquitas
durante os cultos religiosos, nas estações para reconfortar
os viajantes ou nas casas de café instaladas nas grandes cidades.
Conhecida como Vinho do Islã,
a bebida sofreu no início do século XVI sua primeira
perseguição, chegando a ser proibida durante algum tempo
pelos maometanos. De Meca, o café
espalhou-se, durante o século XVI, pelo mundo oriental, atingindo
Damasco, Alepo,
Istambul e a cidade do Cairo,
que se tornou o grande mercado distribuidor do produto. Para manter
o monopólio da rubiácea, os árabes somente permitiam
que saíssem do país grãos previamente fervidos,
que não germinariam em outras terras. Esta medida, porém,
não impediu que os holandeses levassem a planta para Java,
Sumatra e Ceilão
e, posteriormente, para as Antilhas Holandesas,
atingindo as colônias uma produção de cerca de
500 toneladas anuais.
Na Europa...
Inicialmente o café foi conhecido
na Europa por suas propriedades medicinais, de grande e variado poder
curativo, que alçaram-no à categoria de verdadeira panacéia,
atingindo preço elevadíssimo. A partir do século
XVII, porém, o mundo europeu passara a adotar o café
como bebida. Sua introdução na Europa, em moldes comerciais,
deve-se aos holandeses, responsáveis também pela divulgação
do cafeeiro pelo mundo. De um arbusto, trazido de Java
para o Jardim Botânico de Amsterdã,
foram tiradas mudas posteriormente ofertadas aos principais jardins
botânicos europeus. Na Itália, onde entrou em 1615 através
do porto de Veneza, o produto teve que vencer forte resistência
da Igreja. Cristãos fanáticos incitaram o Papa
Clemente VIII a condenar o consumo da bebida, tida como invenção
de Satanás.
O Papa declarou...
Ao provar o café, porém, o papa declarou:
"Esta bebida é tão deliciosa que seria
um pecado deixá-la somente para os infiéis. Vençamos
Satanás, dando-lhe nossa bênção e tornando-a
verdadeiramente cristã". Em decorrência
dessa bênção papal os cafés proliferaram
em Veneza e Gênova e, no fim do século XVII, eram encontrados
em todo o país. Em 1650, em Oxford, um judeu libanês
chamado Jacobs instalou o primeiro estabelecimento
de venda do produto na Europa. Dois anos depois, o grego Pasquá
Rosée abre em Londres o primeiro café europeu
e manda publicar, no The Publish Adviser, o mais antigo anúncio
de café de que temos notícia: "Na Travessa
Bartolomeu, por detrás da Bolsa Velha, pode-se tomar a bebida
chamada café, muito saudável e portadora de excelentes
virtudes: fecha o diafragma, aumenta o calor interno, ajuda a digestão,
aguça o espírito, dá leveza ao coração,
é boa para dor d'olhos, tosse, gripe, resfriados, tuberculose,
dor de cabeça, hidropisia, gota, escorbuto, escrofulose e muitas
outras moléstias. É vendida tanto de manhã como
às três horas da tarde." O hábito
de tomar café agradava ao espírito pragmático
dos ingleses, pois, como observavam, era uma bebida inocente, que,
ao contrário do álcool, não perturbava as atividades
vespertinas daqueles que a ingeriam durante o almoço. Paralelamente
ao sucesso obtido pela bebida, surgem movimentos de contestação,
como aquele promovido pelas mulheres inglesas, que, talvez insufladas
pelos cervejeiros, insurgiram-se contra o seu uso.
Mulheres
inglesas...
Segundo elas, o café "gasta
a força viril dos homens e torna-os áridos como as areias
da Arábia, de onde veio esse grão maldito".
Em Paris, um levantino instalou, no Petit Chatelet,
uma boutique para venda de café em grão ou como infusão,
contribuindo muito para a divulgação do produto, que
em breve passou a ser grandemente apreciado pelos reis e pela nobreza
francesa, a ponto de o Cardeal Mazzarino mandar vir
da Itália um especialista no preparo da bebida. Durante o reinado
Luiz XIV, Paris inteira comentava os jantares oferecidos
à corte pelo embaixador de Maomé IV,
Solimão Agá Mustafá, nos quais
o ponto alto era a cerimônia de preparação do
café, servido por belos escravos, vestidos à moda turca.
O café arraigou-se nos hábitos do povo alemão,
que preferia a bebida misturada com leite. Em 1680, instalou-se em
Hamburgo o primeiro café para venda ao público. Nas
Kaffehaus, pequenas orquestras começam
a se apresentar, unindo a bebida a outra paixão dos alemães:
a música. Entre esses grupos podemos destacar o Collegium,
de Leipzig, cujo diretor, Johann Sebastian Bach,
compôs, em 1732, sua célebre Cantata ao Café,
para ser tocada nessas ocasiões. Frederico, o Grande,
da Prússia, preocupado com a evasão de divisas decorrentes
da importação de café, promulgou um decreto,
em 1781, proibindo o uso de café que não fosse torrado
em estabelecimentos oficiais. Como estes cobravam um preço
exorbitante, o produto passou a ser inacessível ao bolso das
classes populares, diminuindo, assim, o consumo da bebida no país.
O uso do café em Viena teve origem quando, após o cerco
de 1683, os turcos abandonaram a cidade deixando entre despojos algumas
sacas de um produto desconhecido, inicialmente confundido com forragem
para animais. Frans George Kolschitzky, que tendo
vivido no Oriente conhecia os grãos, apoderou-se das sacas
e procedeu à elaboração e venda do produto, ao
qual juntou açúcar e creme chantilly, assim
nascendo o tão apreciado café vienense.
Nos
Estados Unidos
Nos Estados Unidos, o café
passou a ser conhecido em meados do século XVII, trazido pelos
holandeses, que ocupavam Manhattan, então chamada New Amsterdan.
Nova Iorque tornou-se um grande mercado da rubiácea
e, já em 1732, funcionava em Wall Street a Exchange
Coffee House of New York, depois substituída
pela Merchant's Coffee. O café só
chegou ao Brasil em 1727, trazido da Guiana Francesa pelo sargento-mór
Francisco de Melo Palheta, especialmente enviado,
pelo governo, ao país vizinho para conseguir mudas do produto.
A obtenção das sementes, que eram proibidas aos portugueses,
está envolta em uma aura de romantismo: a esposa do governador
da Guiana, tendo-se apaixonado por Palheta, o teria
presenteado, na despedida, com um punhado de sementes de café.
No Rio
de Janeiro...
Nos primeiros tempos o cafeeiro se
desenvolvera apenas nas províncias do norte do país,
em plantações de reduzida importância. O café
chegou ao Rio de Janeiro no início do século XIX, e
foi plantado em chácaras na Tijuca,
Gávea, Andaraí
e Jacarepaguá. Devemos destacar as plantações
do francês Louis François Leceane, antigo
fazendeiro em São Domingos e Cuba,
que introduziu modernas técnicas agrícolas em suas terras
na Gávea Pequena, ao mesmo tempo em que se prontificava a orientar
os que quisessem aprimorar seus cafezais. A chegada de D.
João VI provocou um grande êxodo da população
carioca, obrigada pela inexorável ordem PR (Príncipe
Regente), colocada nas fachadas, a desocupar casas,
em favor dos recém-chegados. Muitos desses moradores partiram
para suas propriedades rurais, onde se dedicaram à cafeicultura,
dando início à marcha vitoriosa do café pela
terras fluminenses e paulistas do Vale do Paraíba.
Em 1850, o Brasil já era o maior produtor mundial da rubiácea,
participando com 40% da produção total, percentagem
que atingirá 81% no início do século XX. Baseando-se
na mão-de-obra servil, o café será o sustentáculo
de uma aristocracia rural tão opulenta quanto a dos senhores
de engenho, composta de ricos fazendeiros do Vale do
Paraíba e da região de Campinas, muitos dos quais se
tornaram titulares do Império - os chamados barões
do café. Nestas propriedades, verdadeiros feudos,
desenrolava-se uma vida de luxo e riqueza comparável à
da corte, propiciada pelos imensos cafezais, alguns com mais de mil
pés, que se estendiam a perder de vista.
No Século
XIX
Nas últimas décadas
do século XIX, vários fatores como o esgotamento das
terras, a dificuldade em obtenção de mão-de-obra
escrava, a Abolição e a República provocaram
a decadência e abandono dessa região. O café,
porém, continuou sua marcha em direção ao oeste
paulista, onde as manchas de terra roxa propiciavam uma produtividade
excepcional. As dificuldades com o transporte do café, em carros
de boi e lombo de muares,
provocaram o interesse dos fazendeiros paulistas na construção
de estradas de ferro. Em 1867, inaugurou-se a Santos - Jundiaí,
que unia Santos, principal porto de exportação de café,
às zonas de produção. Outras ferrovias surgiram
como a Paulista, a Mogiana,
a Sorocabana e a Noroeste,
cujos traçados orientaram a direção de novas
lavouras; mais tarde os cafezais atingiram também o norte do
Paraná. São Paulo tornou-se a Metrópole
do café. O progresso atingiu também as
cidades do interior, onde surgiram bancos e casas bancárias
para atender à estrutura financeira que a produção
exigia. A riqueza cafeeira atraiu grande número de imigrantes,
sobretudo italianos, que para aqui vieram nos fins do século
passando em busca de novas perspectivas, contribuindo com seu trabalho
e alegria para dar novo colorido à vida de nossas fazendas.
Os Imigrantes...
Em 1908, chegaram os primeiros imigrantes
japoneses para trabalhar nas plantações do interior
paulista. A apanhadora de café, de saia rodada e chapelão
de palha, tornou-se o símbolo da riqueza paulista, enquanto
as crianças eram embaladas pela canção: Dorme
nenê, que a cuca vai pegar, papai
foi na roça, mamãe no cafezá.
Com o advento da República, os coronéis
do café, através da chamada política
do café-com-leite, passaram a dividir e alternar-se
com os mineiros na condução dos destinos do país.
A crise de 29, porém,
veio a afetar profundamente a cafeicultura. Levando muitos fazendeiros
à miséria e ao desespero, contribuiu para a eclosão
da revolução de 30, que trouxe
uma nova ordem de idéias, da qual a oligarquia cafeeira não
irá participar. Em sua trajetória pelo mundo, o café
constituiu fonte de inspiração para artistas e literatos.
No Brasil, esteve sempre presente, seja em nossas moedas e brasões,
seja como tema para escritores e pintores melhor registrarem os aspectos
mais característicos da vida brasileira." (fonte:
tulha.com.br)