Março 1, 2004
"SCHADENFREUDE" - Texto por email

Para tudo existe uma palavra
Sérgio Augusto
Não seria ótimo que uma só palavra pudesse expressar aqueles
presentes que a gente dá para aplacar uma culpa? E aqueles desejos e
caprichos que costumam acometer as mulheres grávidas? Não poderiam ser
resumidos numa só palavra? E aquilo que a gente sente por uma pessoa que um
dia amamos, mas deixamos de amar? Não teria um nome? Tem, sim. Para tudo
existe uma palavra. Pena que quase sempre em outra língua e geralmente
intraduzível.

Foi o que aprendi vivendo, viajando-e, acima de tudo, lendo um livro
do professor Howard Rheingold, intitulado There�s a Word For It, lançado no
final da década de 80. Ao lado de vocábulos já universalizados, como déjà-vu
(que já consta do Aurélio), mantra (idem) e bricoleur, Rheingold listou
outros, que são autênticas preciosidades semânticas, boa parte em idiomas
tão fora do alcance comum como o sânscrito, o chinês, o javanês, o balinês e
o havaiano. Não incluiu a nossa tão decantada e superestimada saudade, no
que, a rigor, fez bem, já que ela pode ser substituída, sem grandes perdas,
por nostalgia, longing, Sehnsucht e banzo.

Mais singulares do que saudade, por exemplo, são Drachenfutter,
dohada e razbliuto. Agora vocês já sabem como expressar de forma concisa
(Drachenfutter) aqueles mimos com que os maridos farristas e adúlteros
presenteiam as suas Amélias, após uma noitada fora, aqueles desejos e
caprichos (dohada) que costumam acometer as mulheres grávidas, nas horas
mais impróprias, e aquela estranha afeição (razbliuto) que sentimos por
alguém que deixamos de amar. Drachenfutter é um termo alemão; dohada é tão
sânscrito quanto mantra; e razbliuto, apesar da sonoridade italiana, veio da
Rússia.

O alemão pode ser uma língua eufonicamente bisonha, de pedregosa
prosódia, para muitos impenetrável, mas sua versatilidade semântica, digamos
assim, talvez só não seja maior que a do inglês. Vivemos cercados de termos
alemães, incorporados não apenas ao jargão musical (Lied, Leitmotiv) e
filosófico (Gestalt, Dasein), mas também a instâncias mais elásticas, como
Zeitgeist (espírito do tempo), Doppelgänger (duplo) e Weltanschauung
(cosmovisão), esta última já incluída no Aurélio. Outros mais poderíamos
agregar ao nosso vocabulário, enriquecendo a língua franca a que fomos
inexoravelmente condenados. Pela prosaica razão de não dispormos de
similares para Drachenfutter, Torschlüsspanik, Korinthenkacher, Weltschmerz
e Schlimmbesserung na última flor do Lácio, mal não faria a vulgarização
desses vocábulos entre nós. A menos, é claro, que conseguíssemos sintetizar
numa só palavra o medo que as moças solteiras sentem quando começam a passar
da idade de casar (Torchlüsspanik), aquelas pessoas extremamente preocupadas
com detalhes irrelevantes (detalhista é pouco se comparada a
Korinthenkacher), a cavernosa tristeza de certos jovens (Weltschmerz) e o
resultado adverso de um suposto aprimoramento (Schlimmbesserung).

Se ditames protecionistas nos obrigassem a incorporar apenas uma
palavra do alemão, eu abriria mão de todas as citadas para ficar com
Schadenfreude. Esta é tão significativa e única que americanos e ingleses a
utilizam com freqüência há muito tempo (oficialmente desde 1852, que foi
quando o arcebispo R.C. Trench empregou-a pela primeira vez na Inglaterra),
inclusive em textos jornalísticos, sem ter de explicar entre parêntese o seu
significado, pois boa parte dos povos de línguas inglesas sabe que
Schadenfreude (pronuncia-se chadenfroid) é aquela sensação de prazer que a
desgraça alheia nos provoca.

Por que rimos quando alguém escorrega numa casca de banana?
Schadenfreude.

Por que tantos se divertem com as agressões mútuas dos Três Patetas?
Schadenfreude.

Por que tantos se regozijaram com a situação de Pinochet em Londres?
Schadenfreude.

No carnaval de 1947, Francisco Alves lançou um samba de Benedito
Lacerda e Herivelto Martins, "Palhaço", que começava assim: "Eu assisti de
camarote/ O teu fracasso/ Palhaço/ Palhaço..." Schadenfreude puro.

É mais do que um sentimento sádico, uma desforra ressentida, uma
emoção cruel. Ou seja, é tudo isso somado a mais alguma coisa, uma vingança
metafísica. Nada mais humano, no sentido de próprio do ser humano. Nem os
mais bondosos cristãos deixaram de sentir um Schadenfreude quando souberam
da morte de Hitler. Emoção diabólica, "sinal infalível de um coração
perverso", achava Schopenhauer. Nietzsche discordava. Para ele, a única
coisa melhor do que ver um desafeto sofrer é fazê-lo sofrer. Schopenhauer e
Nietzsche não podiam faltar -e não faltam- no livro que John Portmann
dedicou à expressão Schadenfreude, When Bad Things Happen To Other People
(Quando os outros entram pelo cano), recém-lançado pela Routledge
International Thompson Organization (242 págs., US$ 26,95). Portmann fez um
cuidadoso ensaio filosófico, explorando os variados ângulos do que, a certa
altura, define como "um emoção, ao mesmo tempo, pungente e mercurial",
citando aqui e ali algumas pérolas do Schadenfreudismo. Como esta, de La
Rochefoucauld: "Sempre encontramos algo que não nos desagrada nas
adversidades de nossos melhores amigos". E esta, de Mark Twain: "Para ser
profundamente magoado, você precisa da ação conjunta de um inimigo e um
amigo; o inimigo para falar mal de você e o amigo para lhe trazer o
notícia".

As melhores, porém, são de Gore Vidal. "Toda vez que um amigo meu
faz sucesso, eu morro um pouco". Mais Schadenfreude do que essa, só esta:
"Não basta ser bem sucedido; os outros também, precisam fracassar".

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no
jornal O Estado de S. Paulo, a 17 de dezembro de 2000.

Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 23/2/2004

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Hallo, bin Patrícia aus Brasilien und erzähle ich hier ein bißchen von mir und meinem Leben. Wohne in Deutschland seit ungefähr 3 Jahren und bin Flugbegleiterin von Beruf. Bin verheiratet und Mutter 2 Söhne (3 und 13 Jalt). Zur Zeit lerne ich die deutsche Sprache weiter, weil ich gern lerne und weil in Zukunft möchte ich damit arbeiten.

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