Sou mãe de dois meninos, dois futuros homens. O tempo que permaneço com eles, educando-os para se tornarem, no mínimo, homens de bem, não poderá jamais ter sua equivalência em valor monetário. É um trabalho de valor incalculável. E é também um trabalho de resultados sem fácil dedução, pois o que eles, como seres independentes de mim, farão da própria vida é uma icógnita. Ambos também possuem sua própria aura e seu temperamento, eles não são apenas "conseqüencias de mim", não, e assim confirmam as deduções científicas. O homem não é produto apenas do meio onde vive, ele é produto de si mesmo!
O mais importante, como mãe e educadora é, na minha humilde opinião, ensinar meus filhos a respeitarem a si mesmos e a terem coragem de viver, fora isso, o resto todo e de tudo, fica por conta deles. Agora vivendo no exterior vejo mais intensamente ainda como a minha função é importante. E como estar próxima a eles, no meu dia-a-dia, também é de valor incalculável. Acompanhar o maior na sua descoberta do idioma alemão, ajudá-lo diariamente na leitura, nos exercícios e no cumprimento de suas tarefas. Ficar quietamente orgulhosa de vê-lo já tão eloqüente e se comunicando com mais bravura, ainda um pouco timidamente, mas jamais com covardia. Ele sabe o quê de si.
Ver o outro, menorzinho, mas tão barulhento, crescer tão rápido e desenvolver toda a beleza do crescimento. Aprender com ele que falar o alemão é a chave para uma parte da felicidade... Ver nele o reflexo do que é "não ser entendido" e como a tolerância e o carinho são importantíssimos nessa hora, pois irritar-se com o "idioma de bebê" dele em horas em que se está cansada não é a solução. Ele fica mais chateado ainda e o balbucio se transfoma em choro. O importante, aprendi, é carinhosamente tentar lhe compreender e, acima de tudo, propor uma forma não oral de se entender mutuamente... E assim acontece, às vezes, entre os adultos. Aceitar que ele, já tão decidido de si mesmo - e como!-, escolheu o alemão como sua língua fixa e que preciso me adaptar a isso com calma e orientação, pois a última coisa que devo fazer é forçá-lo a falar o português, ele há de aprender. Vê-lo cheio de bravura, com seus óculos azuis e blusa do "hard rock cafe", se comunicar com os vizinhos e com as pessoas em geral, ele é comunicativo, é a comunicação em pessoa. Ficar orgulhosa de vê-lo já com 2 aninhos dizer "danke" "bitte" "Tschüss" "hallo" e "nein, danke" também para com os estranhos. Já sabe contar até quatro - sobe as escadas contando...- e reconhece as cores, principalmente o azul ou "blau" o qual ele aprendeu a falar direito.
Essas experiências da maternidade não são levadas tão em conta. Parece-me que todos só se interessam por saber daqueles que estão trabalhando (e muitas das vezes sequer conseguem acompanhar o crescimentos dos filhos ou fazer parte disso) e as experiências oriundas desse trabalho. Mesmo que, futuramente, venham a se tornar mães também. Há uma espécie de desinteresse em saber como se criar uma criança num ambiente multilingual, o interesse só aparece quando se está vivendo isso. Na minha época só fui achar referências em blogs e ainda acho que até hoje não vi quase nada mais profundo a respeito. Quando surgiram Manrique e Lara pode-se ter uma idéia de como essas crianças, bilíngües, crescem e como desenvolvem seu entendimento de ambas as culturas.
Não desmereci quem trabalha, nesse caso a mulher, por traçar meu raciocínio, não, apenas acho que não é somente no trabalho em que a mulher se realiza. A mulher moderna (e aqui cabe o adjetivo, pois estamos falando do hoje) ainda pode sim se realizar na maternidade, crescer como ser humano exercendo essa função. Simplesmente porque é algo importantíssimo para o futuro de todos: mães devotadas. As outras mães, acho eu, ficam devendo. E sem contar que a maternidade já devia ter a conotação a muito tempo também de trabalho, e no melhor sentido da palavra! Um trabalho diário e sem horário pra terminar, com horas extras intermináveis e necessários "work shops" para aperfeiçoamento da função... Mas é claro, assim como existe um péssimo funcionário, também existem péssimas mães...
No meu "casamento internacional" (como muitos gostam de apelidar) a minha função como mãe e madrasta é fundamental. Acho que sem a presença e ajuda constante de meu filho mais velho tudo seria muito mais difícil e insuportável. É com ele que converso e fofoco num carioquês manero, é com ele que falo o idioma secreto da família -que só podia ser passado pra filhas mulheres! mas, ora bolas, eu tive dois machos, e aí? decidi pedir desculpas pra vovó no email online da preçe...- e é com ele que aprendo a ser gente diariamente. Foi uma tortura grega trazê-lo comigo, mas sem ele, como diria a mulher do fime, não! A relação com meus enteados têm me ensinado muita coisa também, outras bonitas e outras feias, mas assim é a vida, uma sinfonia do caos regida por Beethoven. Acho que estou finalmente sendo mãe pela primeira vez. Não vi Bernardo crescer direito por causa do trabalho, não pude interagir com ele como o faço com Leonard e isso me faz até chorar, às vezes. É uma época tão bela e ela foi tirada de mim, em parte pela necessidade e noutra pela busca frenética da carreira e da auto afirmação profissional. A primeira infância de Beno passou batida.
É tão difícil educar, tão difícil... Porque preciso ser exemplo! E como ser exemplo sem ser perfeito?!
Não existe solução mágica pra nada, cada caso é um caso e cada destino é um só. Ser independente totalmente do meu marido pra tudo, sinceramente, não significa pra mim (ainda, quem sabe, não sou Deus) chave pra sucesso nenhum, ao contrário, fosse assim, ele teria se casado com uma das tantas alemãs com as quais teve relacionamento. E não foram relacionamentos demais com tempo de menos, não, nem ele sabe direito porque não se casou antes. Eu disse que era simplesmente porque me esperava, assim nos casamos sem mais problemas (hahahahaha). Dependo dele em muitas coisas sim, acho que ainda em muitas demais pro meu gosto, mas as coisas mudam com o tempo, o importante é não se entregar e se estagnar. Movimento, movimento! Em contrapartida posso afirmar, meu primeiro relacionamento sério, de onde ganhei Bernardo, foi exterminado porque eu tinha independência total do ex... Não é engraçado? Mas não confunda essa dependência atual com a falta de atitude, claro que não, entenda, tomo atitudes, mas acho que pra mim está muito bem assim, não me fere e não me inferioriza. Ao contrário, tenho até me sentido mais mulher. É complicado? Não é não. O mais importante de tudo é: indenpendência emocional. O resto não significa nada em se comparando a isso.
Portanto, ser mãe e estar feliz com isso, pra mim, é uma realização importante na minha vida. A carreira que escolhi, como Comissária de Bordo, penso eu, jamais poderei retomar. Cruzei o cabo da boa esperança como diz o jargão. E com mais de 30, conseguir sequer uma entrevista num setor de seleção seria um milagre... Mas isso já passou e atualmente minha paixão é outra e está até indo muito bem. Mas uma coisa é certa, e sigo bem os conselhos das compatriotas que vivem aqui, quero concluir meus estudos de alemão. Acho que isso é o mais importante de tudo mesmo. É a chave pra felicidade, como ensina o pequeno Leonard... E como diria o Chacrinha: "quem não se comunica, se trumbica!!!" Nada mais certo, nada mais preciso!









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