Novembro 25, 2004
Latinos.

Andei lendo uns artigos aí onde afirmavam que, no Brasil, não existe raça. Olha, eu concordo que raça é uma coisa difícil de se solidificar em fatos, pois a história da origem da humanidade, veja a vergonha que andam aprontando contra o pobre coitado do Darwin, é por si só um mistério. Esse lance de ter pacto com macaco é foda, a galera não engole ter na Stammbaum um gorila polígamo com tendências não civilizadas... Realmente, definir um brasileiro nato, com laços de família de mais de 4 ou 5 gerações, ou mesmo daqueles oriundos de troncos familiares firmes desde a época da colonização, como a própria -ainda existente- Família Real Brasileira, é trabalho de Sísifo... Veja você, raça não é só aparência. Ou deveria ser?
Se eu olho um baiano negro, devo eu assumir de imediato que ele é negro?! Daí ele vem e me diz que a avó era portuguesa e que o bisavô era holandês... Tudo provado em cartório, porque intelectual gosta de papel, diploma, certidões, falou em carimbo intelectual tem orgasmo... Enfim, daí o cara vai e diz que o cara é afro-brasileiro, sendo que preto mesmo, ou seja, africano nato, nem ele sabe direito onde está, talvez sejam ainda escravos da época da criação do Brasil ou algum preto fugido de quilombo, quem vai saber?
A mesma coisa é uma peruinha da Barra, com sobrenome alemão no meio da sopa, e.g. uma Carla Moreira Schilling da vida, uma emergente cujos avôs vieram do subúrbio, cuja aparência "nórdica" lhe faz parecer "branca", acreditar mesmo que é Pure White, ou seja, branca... Aí a gente vai lá mexer na Stammbaum* e acha índio brasileiro, espaços em branco (quem sabe um "Pé na Senzala"?), uma avó da Baia, em cuja Stammbaum pode se encontrar desde negros até amarelos... Mas o sobrenome alemão vem do avô, neto de alemães, etc... E o moreira veio da mãe... Sacou? Uma zona do caralho. Dá licença, aí essa umazinha ainda tem a cara de pau de dizer que é branca? Quem é branco mano? Quem?

Outra confusão é o lance do brasileiro não gostar de ser chamado de "latino". Ah, esse nome me lembra argentino... Ou então vem logo à cabeça aquele bando de mexicanos (chamados de "baratas" em inglês pelos yankees) de sombreiro na cabeça, enfim, latino lembra a América LATINA e não o Brasil... Ou pior ainda, lembra a língua do cachorros: AU AU AU AU AU.

Mas qual é o lance? Acho que é a eterna rixa PortugalXEspanha. Português não gosta de ser confundido com espanhol e vice-versa. Com certeza, a valorização e manutenção do "nosso idioma" até os dias de hoje é por si só uma forma de afronta aos espanhóis. Puta que pariu, desculpa, brasileiro não fala português...

Então, daí que a rixa mesmo é coisa de português e não de brasileiro, mas o Brasil meio que sempre "pega" essas doenças de gringo e, tapadão (pra não dizer chapadão né, que fica feio), vai tateando no escuro, como no chão do avião, procurando pelas luzinhas de emergência que o levariam até a porta de saída do Aeromóvel...

Olha, vou dizer pro6, depois que vim morar aqui na Europa passei a dar um valor mais carinhoso ao termo latino. Mesmo ficando putassa da vida quando um ser desse mundo chega preu e pergunta, sempre piscando os olhos ou esbugalhando os mesmos pra demonstrar seu interesse -ou desinteresse- na pergunta: "Ah, no Brasil se fala espanhol, não é?" Aí eu tenho que dizer, cabisbaixa e colonizada: "não, nóis fala Portuguêix."

No Brasil há esse lance de se menosprezar a própria origem, ora a gente detesta saber dos índios e ora odeia saber de portugueses e espanhóis: mas que saco! Muito dão graças a Deus quando começam a aprender a História Mundial em História... Aí a gente sabe quem criou o McDonald's, decora o nome de todos os presidentes norte-americandos, aprende que "América" e "americano" só serve pra quem nasceu nos USA (olha que injustiça! aí todo mundo que ir pra lá mesmo porra), e assim por diante. Quem quer saber etnia de crioulo que foi trazido como escravo para trabalhar à força no Brasil? Quem quer saber quais portugueses corajosos vieram defender suas fronteiras nas Capitanias e exterminar os Tupinambás, às vezes, usando técnicas interessantíssimas como despejar entre os índios cadáveres contaminados com gripe, dá-lhes roupas infectadas com as "doenças de branco". Ou ainda saber das histórias daquela Família Real Brasileira corrupta, maluca de pinel, ninfomaníaca e infiel (não só ao cônjuge, mas ao povo brasileiro, diga-se de passagem) que aparece tão bem (mal) representada em "Carlota Joaquina" (aquela porra lôca feia com fogo no rabo e parafuso a menos), o filme de Carla Camurati.

Enfim, ser latino é foda, principalmente quando nem se tem idéia do que é ser um. Pois ser latino deveria ser, no mínimo, um motivo a mais de orgulho, afinal, latino vem de latim, o idioma dos romanos. E foram esses malucos que dominaram o mundo por centenas de anos, espalhando o idioma latino por quase toda a Europa e dando à ela muito da cara que ela tem hoje. Palavras de origem latina você encontra em todos os idiomas Indo-Europeus, do alemão ao japonês (que não pertence ao ramo, mas com a influência dos portugueses por aquelas bandas -é, até lá!- possui vernáculos portugueses, portanto, latinos), ou seja, também nos idiomas de lugares nos quais os portugueses, na época das grandes expedições e "descobrimentos", estiveram. O próprio português é um idioma que possui mais similaridas com o Latim (inclusive sonoras) do que o próprio Italiano, seu filho pobre.

Então, tendo mais coisas na cabeça do que xis-búrgueres, não vou achar que quando alguém me considera Latina, está na verdade me chamando de Cachorra... Nem vou ficar mais puta quando acharem que no Brasil falamos espanhol, afinal, no fundo, "é tudo farinha do mesmo saco". E compreender e explicar que entre os "latinos" ainda existe um machismo monstruoso que impede, e muito mesmo, que a mulher consiga prosseguir no caminho de afirmação de seus direitos.

*Stammbaum = Árvore genealógica.

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Hallo, bin Patrícia aus Brasilien und erzähle ich hier ein bißchen von mir und meinem Leben. Wohne in Deutschland seit ungefähr 3 Jahren und bin Flugbegleiterin von Beruf. Bin verheiratet und Mutter 2 Söhne (3 und 13 Jalt). Zur Zeit lerne ich die deutsche Sprache weiter, weil ich gern lerne und weil in Zukunft möchte ich damit arbeiten.

Das ist ein 'Zweisprachiges Tagebuch' und die Sprachen, die hier verwendet werden, sind Portugiesisch und Deutsch. Wenn Sie entweder Port. oder Deutsch nicht verstehen können, bitte, Verzeiung aber das ist ein Experiment. You can send me an email in english, no problem.

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