Se algum dia eu viesse a publicar meu diário, desde o dia em que conheci meu marido, com certeza, esse assunto estaria entre o mais polêmico de todos ;) Talvez você que já tenha namorado ou se casado com um alemão (ou nórdico) já tenha passado por isso: "Mas que diacho de nome de semana estranho esses que vocês têm!" ou então "Mas não há o menor sentido a semana começar na SEGUNDA!". Coisas que venho ouvindo nesses 4 anos de relacionamento. Nunca havia conseguido explicar cem porcento a razão da nossa semana ter realmente os nomes que tem. Pois o Márcio Bueno chegou para alegrar minha vida e, acima de tudo, a minha curiosidade em Philologie =) Se você também já passou por isso com seu marido germânico, aproveite o texto e dê uma aula para ele... Sem contar que o nosso calendário semanal é um exemplo de cristandade (nesses tempos de hoje, praticamente uma benção divina...), segundo a Igreja Romana, claro :-) Buenas, pra ser sincera, tá bem mais pro meu gosto!
A divisão do calendário em períodos de sete dias já fazia parte de algumas culturas, como é o caso da judaica, desde a mais alta Antigüidade. No Velho Testamento, cada dia da semana é associado a uma fase da criação do mundo - o sétimo dia (SÁBADO) é o dia em que o Senhor (Deus) descansou. A escolha de sete dias pode ter sido influenciada pelo tempo aproximado de cada uma das fases mais conhecidas da Lua. Aos poucos, os romanos também passaram a adotar esse sistema, o que teria acontecido um século antes de Cristo ou, segundo alguns autores, só bem mais tarde, por influência dos cristãos. Mas, diferentemente dos judeus, os romanos consagraram cada dia da semana a uma divindade de sua mitologia, na seguinte seqüencia: Sol, Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno (Deus do Tempo). Essas divindades eram representadas pelos únicos astros que os romanos viam se movimentar no firmamento, sistema que foi seguido por praticamente todas as línguas européias. As antigas denominações latinas era as seguintes:
Primeiro: Solis Dies [dia do sol]
Segundo: Lunae Dies
Terceiro: Martis Dies
Quarto: Mercurii Dies
Quinto: Louis Dies
Sexto: Veneris Dies
Sétimo: Saturni Dies
Por influência dos romanos, línguas do grupo germânico também acabaram adotando o sistema. Só que, do terceiro ao sexto dia da semana, os deuses não eram comuns. Então eles trocaram os deuses romanos pelas divindades nórdicas correspondentes (veja o quadro). Entre essas línguas se incluem o alemão (deutsch), o inglês, o holandês, o sueco e o norueguês. Como os dias eram consagrados a divindades "pagãs", os cristãos romanos adotaram, no calendário litúrgico, um sistma enumerativo: prima feria, secunda feria... até sexta feria, mantendo apenas na denominação do último dia da semana o tradicional sabbatum (do Shabbat judeu, que significa "descanso"). No ano 321 d.C, o imperador romano Constantino I trocou a denominação de primeiro dia, prima feria, por Dies Dominicus [Dia do Senhor], considerando que esse foi o dia da ressureição de Cristo. Dies Dominicus é a origem do nosso "Domingo". E o dia do descando, que os judeus guardam no último dia da semana, o sábado, passou a ser observado pelos cristãos no primeiro, o domingo.
A Igreja Católica, especialmente depois de Constantino I, conduziu uma vigorosa campanha durante séculos para que todos os idiomas adotassem o sistema enumerativo. No século VI d.C., na faixa oeste da Penísula Ibérica, h oje Portugal, o arcebispo de Braga, São Martinho de Dume, condenava o sistema "de se nomearem por 'demônios' os dias que Deus fez". Esse foi o único ponto do Ocidente a adotar as novas denominações determinadas pela Igreja de Roma, pela força de São Martinho e certamente pela posição periférica e mais dependente da região. Todas as demais regiões, incluindo a própria península itálica, continuaram com as denominações antigas.
As línguas neolatinas somente aderiram à mudança do Solis Dies [dia do sol] pelo Dies Domenicus e do Saturni Dies [dia de saturno] pelo Sabbatum. Alguns idiomas do grupo germânico nem a essas mudanças aderiram. A adoção pela Igreja do sistema enumerativo, com o adendo de feria, que em português se tornou 'feira', ainda é motivo de muita controvérsia entre estudiosos. Afinal, em Latim, feria (mais usado no plural, feriae) nada tem a ver com trabalho, pelo contrário. Entre as definições do termo encontram-se: 'dias de descanso, dias feriados, férias; festa, regozijo público; descanso, suspensão do trabalho'. Alguns autores dizem que é porque Dies Ferialis [dias de festa de um santo] se contrapunha a Dies Dominicus. Para outros, no calendário litúrgico, feria significava o dia em que não se comemorava uma festa. Ou seja, seriam as 'férias das festas', dias de trabalho. Existem estudiosos, no entanto, que dizem estar o termo latino feria relacionado com ferre [levar]. Significava levar o gado e os frutos da terra para vender no Mercado (mais tarde, Feira). Era o dia de descando, porque para eles, só era considerado trabalho o que se fazia na terra, no campo.
O termo feria [féria] passou a ser também a quantia em dinheiro que se apurava no final das vendas, permanecendo até hoje com esse significado. Em português, no plural, passou a designar a interrupção do trabalho. No quadro, você observa todas essas explicações. Percebe-se que, à exceção da língua portuguesa, a maioria dos dias da semana de todas as demais línguas preserva o sistema Latino. Aliás, a mais fiel é a língua inglesa, que nem é neolatina. Como, de terça a sexta-feira, línguas germânicas fizeram a correspondência das divindades romanas com os deuses nórdicos, os nomes desses deuses aparecem entre parênteses no quadro.
Compre o livro e divirta-se, é ótimo!
Autor: Bueno, Márcio
Editora: Jose Olympio
Edição : 4 / 2003
Previsão de Postagem: 1 a 2 dias úteis
Mais informações sobre a postagem.
De R$ 33,00
Por R$ 31,30
Sinopse:
A ave que na língua portuguesa conhecemos como peru é chamada estranhamente de turkey [Turquia], em inglês, e de dinde [da Índia], em francês. Quais as razões dos nomes de três países diferentes, se não é originária de nenhum deles? Esclarecimentos de questões como essas se sucedem em todas as páginas do livro. No verbete ´cuba-libre´, são revelados os interesses políticos que motivaram a criação da bebida e do nome. O autor não economiza nas explicações, indo muito além da origem etimológica em si. Ilustrado com diversas fotografias, nos permite conhecer tanto personagens históricos quanto objetos que deram origem a palavras que usamos no dia-a-dia. No capítulo Influência Portuguesa, um momento de elevação da nossa auto-estima - o autor brinda os leitores com palavras de várias outras línguas (em japonês são dezenas), que tiveram origem em nosso idioma.









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