Ora, um homem que não transmite sua própria língua (ou seja, sua própria cultura) aos seus filhos é um homem que claramente não valoriza nem essa língua nem essa cultura. Ou melhor, é um homem que tem uma outra cultura." - Sobresites (de novo o Alexandre...)
E não é que acabei reencontrando esse texto acima do Alexandre? Quer dizer que "sinal de brasilidade" é saber quem foi Princesa Isabel? Ou saber quem foi Capitu (seja lá o que isso for)? Se os filhos do diplomata falecido (ou de qualquer criança com pai ou mãe estrangeiro, por associação) não falarem português está "na cara" que a cultura brasileira sequer foi passada aos mesmos...
A afirmação acima, a de que o pai que não transmitiu a "própria língua" aos próprios filhos é um apátrida, isto é, "homem que claramente não valoriza nem essa língua nem essa cultura" é não só absurda como extremamente inconseqüente. Como o Alexandre talvez nem tenha filhos ainda e muito menos é casado com uma estrangeira, está totalmente por fora da situação que é criar filhos numa família bi- ou poliglota! Fiquei pesando: e seu eu estivesse longe dos meus filhos, quem lhes passaria meu idioma (e supostamente a minha cultura)? Se eles estivessem vivendo aqui na Europa em companhia do pai, obviamente, ninguém! Isso significaria menosvalia para meus filhos? Não.
O próprio reafirma que o diplomata falecido era um "cidadão do mundo", um homem atarefadíssimo e em movimento constante. Quem passa o "idioma materno" (Muttersprache!) aos filhos é a Mãe! Quando numa família comum, com pai e mãe, pois é obviamente a mãe que mantém um maior contato com o bebê, etc. Não é à toa que o idioma que dizem que a criança possui "desde que nasce" é o da mãe, a língua materna [=Mutter-sprache].
Criar os filhos no estrangeiro só falando o idioma da mãe é tarefa difícil quando a própria mãe já fala o idioma do país para onde migrou, ou vice-versa no caso do pai. A língua nas ruas, na escola, na tv, em todos os lugares, fora o colo da mãe, é o idioma do país em que se vive! Isso não significa absolutamente que, caso a criança deixe de falar mais o português, a mãe a esteja se distanciando do Brasil, anulando a transmissão da cultura deste país ou coisa do tipo.
Meu filho fala muito mais alemão do que português, e português ele praticamente só fala comigo. Na rua e com o resto da família ele só fala alemão. E tem de ser assim mesmo. Não estou criando meu filho em Guetto nenhum, mas criando-o para o mundo e, acima de tudo, para se adaptar à sociedade onde ele está sendo criado. É uma criança integrada e adaptada ao sistema. Se comunica com todos à sua volta, consegue exprimir seus desejos a estranhos e não está fadada a ser vítima de preconceito. Sim, porque criança aqui que não fala alemão é vista sim com menosvalia, principalmente pela Escola. Crianças estrangeiras no Maternal ou Jardim de Infância que não falam uma palavra em alemão são um estorvo monstruoso para o sistema educacional alemão. E isso vem se agravando ano após ano, principalmente devido ao estúpido sistema de emigração e suas leis.
Meu filho maior, desde que aqui chegou, vem freqüentando, com a graça de Deus, aulas de Português e lá nesses encontros vejo que a totalidade das crianças fala mais o alemão do que o português. Os pais, casais de portugueses ou de portugueses casados com alemães, não pararam de falar português com seus filhos, mas com o adentrar à escola e a necessidade de contatos e amiguinhos, é simples, o alemão acaba se tornando a língua dominante. Muitas das crianças esquecem "como" se fala o português e os pais, a quase totalidade deles, fala fluentemente o alemão, um sinal de plena adaptação ao país. Aliás, os portugueses, os ibéricos em geral, são um povo maleável e afortunado, se dispõe a aprender sempre.
Não se tem como comparar, por exemplo, essa flexibilidade dos portugueses (me incluo aí no time) com a inflexibilidade latente dos imigrantes de origem árabe. A maioria não permite sequer aos filhos que se fale alemão ou se veja tv alemã em casa. Aprendem alemão com extrema dificuldade, pois as mães não freqüentam cursos ou são forçadas a ficar apenas em casa, assim não têm como ajudar os filhos nas tarefas escolares. Crescem super valorizando a suposta cultura dos países de origens dos pais, mas esquecem completamente que estão na Europa! Não aceitam ou sequer respeitam os valores da sociedade européia, permanecendo, inlcusive, cegamente condizentes com atitudes declaradamente ilegais na Alemanha, tal como o Casamento forçado, etc. Uma situação difícil e muito para a criança que acaba crescendo à parte da sociedade. Obviamente, existem exceções, como em tudo na vida.
Aí está a questão fundamental. Claro, para quem vive a realidade de se estar criando um filho no exterior! Meu filho não pode ser considerado um apátrida só porque não fala fluentemente (ou não fala mesmo) o português! Ele também não pode ser julgado como desconhecedor do país de sua mãe só porque não fala o idioma dela. Os filhos da minha tradutora que moram aqui, ambos já adultos, não falam português, mas sabem muito do Brasil. Ela, filha de alemães nascida aqui na Alemanha, foi levada para o Brasil ainda bebê. Lá cresceu e aprendeu ambos os idiomas. Acabou se casando e voltando a morar na Alemanha. Aqui vive de traduzir, os filhos falavam português até entrarem para a escola, a partir daí nem ela sabe explicar direito como o idioma "sumiu" do convívio familiar. Ela não criou raízes em São Paulo e nem visita o Brasil com freqüencia, mas não odeia o país, óbvio! Devo julgá-la uma apátrida que detesta o Brasil?
Acho que a dedução foi injusta e mal feita. Não ter conhecimento de um assunto dá nisso. Já basta a tensa pressão que sofre uma mãe ao criar seu filho num ambiente desses. É a família no Brasil exigindo que o neto, sobrinho, fale português e a família e a sociedade daqui querendo o mesmo!!! É muito difícil mesmo encontrar um balanço, uma orientação e uma mãe sem conhecimento do alemão, criando um filho aqui, a partir do ano que vem, vai ter problemas. O governo começou um onda de restrições e imposições aos estrangeiros, praticamente nos obrigando a aprender o idioma do país Alemanha, no mínimo. Portanto, é muito fácil criticar um cara morto sem nem saber direito os fatos reais da educação dos filhos dele e nem sequer saber, de verdade, o fundo de verdade nisso tudo. Se ele teve ou não sequer a oportunidade de passar aos filhos o português. Já que é pra "achar" então eu acho sim que o tal diplomata defunto falava português com os filhos, francês com a mãe e inglês no trabalho...









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